João
Goulart, as provas e a história
Por Gilson Caroni Filho* .......(07-02-2008)
O Novo Dicionário Aurélio define
"prova" como "aquilo que atesta
veracidade ou autenticidade de uma coisa;
demonstração evidente".
Nas reportagens ditas investigativas, é
algo a ser obtido durante a fase de apuração
das informações que vão
ser publicadas. Peça tão importante
que deve ser checada criteriosamente.
Na entrevista concedida à Folha de
S.Paulo (27/1), o ex-agente de inteligência
do governo uruguaio Mário Neira Barreira
afirma que João Goulart, deposto em
1964 e morto em 1976, foi assassinado por
envenenamento a pedido do governo brasileiro.
A rigor, não estamos diante de um
furo jornalístico. Há duas semanas,
após entrevista de Barreira com João
Vicente Goulart, filho de Jango, a família
entrou com uma ação na Procuradoria
Geral da República na qual pede que
se investiguem as circunstâncias que
cercaram a morte do ex-presidente em seu exílio,
na Argentina. O que o diário paulista
conseguiu foi um material rico em detalhes,
algo que pede para ser reconstituído
como acontecimento histórico relevante,
podendo tanto confirmar a versão oficial
(ataque cardíaco fulminante) como refutá-la.
O que está em questão é
a disposição e/ou capacidade
de se fazer jornalismo investigativo ou deixar
que matéria morra na opinião
sobre os "especialistas do tema".
Ouvindo o que Jango falava
Ao escrever que Mário Neira "não
exibiu provas e disse que o caso era discutido
pessoalmente", a jornalista Simone Iglesias,
involuntariamente, suscita questões
interessantes: o que pode ser considerado
prova em um episódio como esse? Uma
autorização por escrito do então
presidente general Ernesto Geisel ou do delegado
do Dops Sérgio Paranhos Fleury? Algum
comprimido envenenado com frasco mostrando
a validade vencida?
Se considerarmos que o relato do uruguaio
guarda inconteste coerência interna
- e é verossímil com o contexto
político da época - a entrevista
pode ser o primeiro passo na concepção
de um instigante trabalho de investigação.
Uma história que pede para ser revisitada.
Se, tal como definida no dicionário,
"prova circunstancial" é
aquela que se baseia em indícios, as
palavras do entrevistado não podem
ser descartadas por falta de relevância.
Como prova testemunhal, conhecida nos meios
jurídicos como "prostituta das
provas", a posição funcional
de Neira é um dado que não deve
ser ignorado. O que deve ser apurado não
é de pouca monta. Senão, vejamos:
"Estive na fazenda de Maldonado para
colocar uma estação repetidora
que captava sinais dos microfones de dentro
da casa e retransmitia para nós. Esta
estação repetidora foi colocada
numa caixa de força que havia na fazenda.
Aproveitamos essa fonte de energia para alimentar
os aparelhos eletrônicos e para ampliar
as escutas. Isso possibilitava que ouvíssemos
as conversas a 10, 12 km de distância.
Ficávamos no hipódromo de Maldonado
ouvindo o que Jango falava."
Uma rara oportunidade
Não há como confirmar junto
à família ou ex-trabalhadores
a existência dessa caixa e a plausibilidade
operacional de escuta no hipódromo?
Ou disso cuidam os biógrafos?
"Foi morto como resultado de uma troca
proposital de medicamentos. Ele tomava Isordil,
Adelfan e Nifodin, que eram para o coração.
Havia um médico-legista que se chamava
Carlos Milles. Ele era médico e capitão
do serviço secreto. O primeiro ingrediente
químico veio da CIA e foi testado com
cachorros e doentes terminais. O doutor deu
os remédios e eles morreram. Ele desidratava
os compostos, tinha cloreto de potássio.
Não posso dizer a fórmula química
porque não sei. Ele colocava dentro
de um comprimido."
Certamente, há como se comprovar ou
não a existência do médico
e seu papel no aparato repressivo. A medicação
citada deve ser de conhecimento dos familiares
ou de algum clínico com quem o ex-presidente
tenha se consultado. Quem sabe não
há prontuários no Brasil, Argentina
ou Uruguai? Estamos falando do estudo de viabilidades,
um procedimento bastante familiar a experientes
jornalistas.
Se, conforme é descrito na matéria,
"o Exército brasileiro informou
que não há hoje ninguém
na ativa com condição de responder
ou até rejeitar acusações.
O mesmo foi dito pela embaixada dos Estados
Unidos no Brasil, questionada se houve participação
da CIA na suposta operação para
matar o presidente João Goulart, em
1976", é hora de a Folha de S.Paulo
estabelecer um plano de ação
e pôr em campo uma equipe familiarizada
com o tema e que a ele se dedique com afinco.
Estamos falando da Operação
Condor e de uma rara oportunidade: aquela
em que a história, sorrateiramente,
adentra uma redação como esfinge.
A opção é por demais
conhecida para ser repetida como desfecho
de artigo.
Ou será que a proverbial preguiça,
advinda do exercício constante do denuncismo
vazio, levou nossa imprensa a criar um novo
preceito jurídico? Algo do gênero:
a quem se acusa cabe o ônus da prova?
* Artigo
publicado originalmente no Observatório
da Imprensa