Obama para
todos os gostos
Por Suely Carneiro* ......(15-01-2008)
A onda de mudanças políticas
que parecia fenômeno latino-americano
atinge as eleições presidenciais
dos EUA. Em cada lugar ela se manifesta de
diferentes maneiras guardando respeito às
características culturais e políticas
de cada país ou região, mas
elas têm em comum os ventos de mudança.
Nada mais emblemático do que a polarização
das candidaturas do senador negro Barack Obama
e a senadora Hillary Clinton pela indicação
do Partido Democrata para a sucessão
do presidente George Bush na Casa Branca.
Gênero e raça são temas
importantes na sociedade norte-americana porque
representam um desafio para a realização
da igualdade. E a possibilidade de um homem
negro ou uma mulher branca se tornarem presidente
dos EUA renovam a confiança na vitalidade
da democracia americana, na sua capacidade
de se renovar e se reinventar. Os que simbolizam
grupos historicamente excluídos ou
discriminados são chamados a ofertar
originalidade, renovação, mudança
e esperança na (des)ordem do mundo.
Além do interesse que desperta, a
simbologia que cada candidato carrega presta-se
a variadas apropriações, em
diferentes contextos, que extrapolam os limites
geográficos e os interesses em jogo
naquele país. A candidatura de Obama,
com alto grau de adesão da população
branca norte-americana, é vista por
analistas como sintoma do progresso nas relações
raciais nos EUA que nessa leitura significaria
ter ele se tornado opção eleitoral
efetiva para grandes parcelas dos norte-americanos
a despeito de sua cor para uns, ou, para outros,
da suposta "neutralidade racial".
No Brasil, em razão dessas supostas
características, Obama tornou-se a
nova arma dos formadores de opinião
que combatem as políticas de igualdade
racial, em especial as cotas nas universidades
brasileiras. Em chamadas de matérias
da imprensa nacional sobre as prévias
nos EUA, lê-se, que "Obama tornou
cor irrelevante na campanha". Outras
reiteram como aspecto mais interessante de
sua candidatura o que analistas consideram
ser a sua "laicidade" ou "desenraizamento"
racial. Há os que atribuem as características
ao pertencimento birracial. Outros artigos
destacam trechos de seu livro A audácia
da esperança, em que ele discorre sobre
a necessidade de ajustes nas políticas
raciais norte-americanas.
Curiosamente, a inferida neutralidade racial
atribuída a Obama e tão enfatizada
por certos analistas nacionais, tanto quanto
o fato dele ser filho de mãe branca
e pai negro e ter parentes de diferentes tonalidades,
não são capazes de fazer que
ele seja percebido dentro e fora dos EUA como
apenas um candidato à Presidência
dos EUA. Ele é sempre referido como
candidato negro e só seria viável
por não se fazer perceber como tal.
Tem-se, nesse caso, uma perversão
daquela sentença que diz que à
mulher de César não lhe basta
ser honesta. Ela deve também parecer
honesta. No caso dos negros essa idéia
adquire bizarra formulação:
pode-se até ser negro, mas não
se deve parecer negro.
Em outra dimensão, as abordagens sobre
a candidatura de Obama expõem também
as contradições em que são
enredadas as candidaturas negras lá
e cá. De um lado, ser um negro que
faz da política de identidade racial
o motor do posicionamento político
é visto como limitador ou impeditivo
para que o candidato possa alcançar
um universo mais amplo de eleitores ou representar
interesses coletivos. De outro, relativizar
a política de identidade numa estratégia
política tornaria o candidato um desenraizado,
menos negro. No entanto, em qualquer desses
enquadramentos, o candidato permanece sempre
negro. A reiteração constante
da negritude de Obama presta-se para negá-la.
Porém, o senador negro não
cai facilmente na armadilha de prestar-se
ao velho jogo, sempre proposto pelo poder
branco, de usar um negro de sucesso para reiterar
os estigmas que pesam contra os outros e barra-lhes
as reivindicações. No livro
A audácia da esperança, ele
descreve o que denomina de "ritual de
mesquinharias" que todo homem negro tem
que suportar: de segurança que o seguiram
em lojas de departamentos, casais brancos
entregando a chave do carro a ele do lado
de fora de restaurantes, confundindo-o com
o manobrista. "(...) Eu sei como é
quando as pessoas me dizem que não
posso fazer algo por causa da minha cor e
eu sei o gosto amargo do orgulho negro engolido."
Como ele declarou num programa de TV: "Na
calada da noite, em uma rua deserta de qualquer
grande cidade, um motorista de táxi
iria vê-lo com certa suspeita em vez
de exclamar olha aí, um cara legal,
meio branco, meio negro. Os que preferem ver
em Obama "neutralidade racial" são
os que nos propõem a dissolução
da negritude num universalismo que suprime,
autoritariamente, as nossas identidades.
Desvendando essa trama, Aimée Cesaire
ensinou que "há duas maneiras
de se perder: por segregação
na particularidade ou por diluição
na universalidade". Há muitas
formas de viver e politizar a negritude. Obama
é uma delas.
* Suely Carneiro
é doutora em Filosofia da Educação
pela USP e diretora do Geledés (Instituto
da Mulher Negra)