O
prêmio de Eudes
Eudes é um daqueles
típicos funcionários do Banco
do Brasil que ocupa cargo de gerência
média em agência de pequeno porte.
Foi-lhe dito, e ele acredita, que o sucesso
em sua carreira depende unicamente dele mesmo,
das certificações que obtiver,
estudando à noite e nos finais de semana
e de sua dedicação à
empresa.
Sai de casa pela manhã, enquanto os
filhos ainda dormem. Via de regra, é
quem abre a agência, ou seja, é
o primeiro a chegar.
Almoça na própria agência,
normalmente um sanduíche pedido na
lanchonete mais próxima de algum cliente
amigo, inimigo de seu estomago e de sua saúde.
Ao final do dia, abre o terminal de caixa
para ajudar no processamento dos envelopes
do auto-atendimento. Nem sempre é ele
quem o opera. Despacha diversas autorizações
sem ao menos ver do que se trata, pois o tempo
é muito escasso.
É ele quem fecha a agência,
ou seja, é o último a sair.
Volta pra casa extenuado. Não tem
mais forças pra brincar com os filhos
ou com a companheira. Janta e dorme no sofá,
em frente à tv, durante a propaganda
do banco da Renata, aquele que é todo
seu, mas parece tão diferente daquele
do qual ele acabou de sair. Sonha ali mesmo,
com os compromissos que deverão ser
cumpridos no dia seguinte e com as tarefas
que ficaram pra traz no banco.
No anseio de cumprir seus deveres, Eudes
esquece alguns preceitos básicos. A
rotina de serviços não é
mais a do LIC, é a que é possível.
Com isso, algumas normas de segurança
são esquecidas ou deixadas de lado.
A estagiária acaba trabalhando com
sua senha e muito além do devido. Com
isso, Eudes passa de explorado a explorador,
sem se dar conta do papel que está
cumprindo.
O salário da estagiária é
quase de fome, muito menor do que o da categoria.
E ela, investida dos poderes de uma senha
nível quatro, de acesso a sistemas
e valores, acaba por garantir uma renda maior
que o contratado.
Mas a matrícula e a senha são
do Eudes. Não adianta explicar que
faltavam funcionários, que o volume
de serviços era e ainda é desumano,
que ele é zagueiro, centroavante e
lateral ao mesmo tempo. Que foi a estagiária
e não ele o autor das fraudes. Que
ele continua devendo o cheque ouro, o CDC
e o cartão de crédito está
quase no limite. Jamais se apossou de qualquer
coisa que não fosse sua. Como explicar
que os funcionários trabalharam fora
do ponto eletrônico para garantir o
atendimento ao cliente e o lucro da empresa?
Os algozes são frios, trabalham em
gabinetes com ar condicionado e se limitam
ao contido nos normativos e no LIC.
Está premiado pela sua dedicação.
Pelo fato de ter deixado a família
de lado e ter feito do banco sua própria
família. Por não ter visto os
filhos crescerem e por ter perdido momentos
de amor e afeto com sua companheira.
Está demitido por JUSTA CAUSA. Injusto
prêmio para Eudes, mas inexorável
pela lógica do banco e do capitalismo.
Muitos outros Eudes estão hoje no
banco. Trabalhando exatamente como ele, sem
saber que para a empresa representam um número,
uma matrícula, dispensável a
qualquer momento e que o caminho é
a unidade dos trabalhadores para combater
a exploração de todos os dias.
* Eudes é um personagem fictício,
mas a história é verdadeira
e se repete diariamente
Fonte: Unidade BB