O disse-que-disse
da TV Globo
Por
Gilson Caroni Filho* .......(08-02-2008)
A
imprensa brasileira, tal como o diabo, pode
ser melhor apreciada nos detalhes. Em pequenas
trucagens, direcionamento de coberturas e editorialização
de textos que não disfarçam seus
propósitos, a marcha batida continua.
O ano de 2008 ainda não conta dois meses
e já vemos o aparato informativo redobrar
seus esforços para intensificar uma ofensiva
que tem dois alvos claros: a sua própria
credibilidade e o governo Lula. Se há
paradoxo, ele é secundário para
uma mídia opera na lógica dos
fins que justificam os meios.
A
cobertura dada pela TV Globo ao depoimento do
publicitário Marcos Valério, acusado
de ser o principal operador daquilo que a imprensa
chama de "o esquema do mensalão",
merece um breve registro sobre o tipo de jornalismo
praticado pela emissora da família Marinho.
Estamos
diante de um noticiário que, objetivando
reforçar axiomas, abre espaço
para temas repisados, subtraindo qualquer coisa
que contrarie a coerência interna das
premissas construídas para "explicar"
crises políticas recentes. É o
reforço necessário para reiterar
o dogma da "infalibilidade global".
Trata-se
de um jogo de espelho que, confundindo o leitor/telespectador,
busca colonizar o seu imaginário através
de representações simplificadoras.
É o que chamamos de persuasão
pelo reducionismo. Um procedimento que tem marcado
a prática narrativa do campo informativo
de tal forma que, aos profissionais mais jovens,
já afeitos à ideologia do jornalismo
de mercado, soa com "operação
técnica" admissível.
Em
seu clássico Ideologia e técnica
da notícia, Nilson Lage chama a atenção
para dois aspectos constitutivos básicos
que não devem ser esquecidos quando se
busca uma definição correta da
produção noticiosa: a) "uma
organização relativamente estável,
ou componente lógico"; e, b) "elementos
escolhidos, segundo critérios de valor
essencialmente cambiáveis, que se organizam
na notícia - o componente ideológico".
O
telejornalismo global ilustra bem como se dá
a seleção de elementos e como
eles conformam proposições seqüenciadas
pelos interesses políticos do veículo.
Mostra, com clareza cristalina, a que estão
sujeitos os que já foram condenados pelo
tribunal midiático, sem qualquer direito
a apelação em colunas ou editoriais.
Interrogado
pela Justiça Federal, em Belo Horizonte,
Marcos Valério disse, como registra a
Folha de S.Paulo (2/2), que "que nunca
conversou sobre empréstimos com o ex-presidente
do PT, José Genoíno, nem tratou
do tema com Dirceu, cuja trajetória política
disse respeitar e admirar". Não
está em questão a credibilidade
ou não do depoente, mas o objeto do fato
noticiado.
Preferindo
omitir esse trecho do depoimento, o Jornal Nacional
de sexta-feira (1/2), informa que "segundo
Marcos Valério, o ex-secretário-geral
do PT, Sílvio Pereira, disse a ele que
o ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo
Lula, José Dirceu, sabia dos empréstimos
ao PT". Mas, tal como destaca o ex-ministro
em seu blog, a edição se esqueceu
de um dado crucial: Sílvio Pereira nega
que tenha dito qualquer coisa.
O
"disse-que-disse" e a supressão
de algo favorável a um desafeto político
não constam das boas regras de cobertura
jornalística. Corroboram mais ainda a
tese que aponta para a crescente partidarização
da imprensa, com destaque para a emissora hegemônica
e monopolista.
É
sempre bom destacar que o contexto da notícia
se dá em lugar, espaço e tempo
definidos. Relatos que prescindem de exigência
de demonstração têm sentido
no campo religioso. Quando se trata de jornalismo,
é procedimento ideológico tosco.
E de eficácia duvidosa. Temos um longo
ano pela frente. A militância das redações
não precisa de manuais.
*
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia
das Faculdades Integradas Hélio Alonso
(Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do
Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.
Escreveu este artigo para a agência Carta
Maior.
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