Fidel e o roteiro
de um panfleto de Abril
Por Gilson Caroni Filho*
Prometi a mim mesmo não escrever sobre
publicações que não merecem
sequer leitura de capa. Cansei de fazer isso
em outros lugares. Mas como novas gerações
de leitores surgem em breves espaços
de tempos, quebro a promessa, sob risco de
me condenar à repetição.
O que escrevo aqui é mais um plano
de aula que qualquer outra coisa. Ou talvez
um roteiro para colegas de magistério.
Se, por dever de ofício, um professor
precisar demonstrar como parcela da imprensa
está colonizada por um jornalismo de
extrema-direita, não terá grandes
dificuldades pela frente. Se o aluno for preguiçoso
ou pouco inteligente, o trabalho pode ser
bem menos exaustivo do que parece à
primeira vista.
Evite publicações que, pela
diversidade ideológica dos colaboradores,
tenham alguns campos conflitantes a dificultar
a percepção de seus perfis editoriais.
Procure algo mais tosco, que não se
preocupe em disfarçar quem tem como
aliados e, por conseguinte, quem elege como
inimigos. Uma revista que da primeira à
última página seja uniforme,
sem sobressaltos, totalmente previsível.
Dê preferência àquela
com melhor resolução gráfica
e pasteurização dos temas abordados.
Não hesite: em nome do aprendizado
mais rápido, vá à banca
mais próxima, tape o nariz e adquira
um exemplar de Veja. Seu sucesso pedagógico
está assegurado. E você terá
em mãos a mais pusilânime das
publicações semanais. A que
não solicita grandes abstrações
para a apreensão de sua dinâmica.
A que conta com a simpatia da classe média
protofascista do país.
Das notinhas plantadas da seção
Radar ao "colunista-biógrafo-de-ex-presidente,
na última página", reina
a mais perfeita harmonia ideológica.
Sempre raivosos, os colaboradores atacam os
desafetos sem qualquer preocupação
com a inconsistência dos próprios
argumentos. Mas isso não é problema.
Afinal, o objetivo ali é apenas atualizar
o repertório de insultos encomendados
e sistematizar o que vai n'alma da direita
nativa. Se não conhecem patavina sobre
o que escrevem, isso não inviabiliza
o embuste. O importante é explorar
o nicho conquistado
Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi, dupla
folclórica do fascismo de frases curtas,
dão mostra da infinita capacidade involutiva
do panfleto da Editora Abril, desenvolvendo
uma espécie de darwinismo de contramão.
Vale a leitura se houver necessidade de reforçar
noções rudimentares de ecossistema
editorial
A parte mais interessante do pasquim dos
Civita está guardada para o final da
publicação, uma espécie
de fecho de ouro do soneto panfletário.
Nosso ex-colunista de palácio, Roberto
Pompeu de Toledo, é o mais famoso escriba
pela capacidade de prestidigitação.
Espécie de consciência cívico-crítica
do leitor, não foram poucas as semanas,
durante o desgoverno tucano, em que a uma
crise envolvendo o governo em escândalos
corresponderam colunas que tratavam da "importância
antropológica do elevador" ou
do "escasso repertório de piadas
de botequim nos dias contemporâneos".
E não são raros os seus admiradores,
a se dar crédito à seção
de cartas. O que nos remete à máxima
de Paulo Francis nos anos 70: "A história
é monótona, a cada minuto nasce
um leitor idiota". E cúmplice,
acrescentaríamos.
Estamos diante de um aluno estupefato e uma
publicação "tipo-ideal"?
Então vale a pena ler o que escreve
Pompeu, na edição 2049, aquela
que traz na capa a chamada " Já
vai tarde - o fim melancólico do ditador
que isolou Cuba e hipnotizou a esquerda durante
50 anos". É um belo exercício
de falseamento histórico.
Judicativo, o nobre colunista escreve: "Muitos
acreditaram na notícia da renúncia
de Fidel Castro. Talvez até o próprio
Fidel tenha acreditado. Eis, no entanto, algo
que nem querendo ele poderia realizar, pelo
simples motivo de que, tirante a hipótese
de suicídio, está fora de seu
alcance renunciar a si mesmo".
Peça a seu aluno que leia esse parágrafo
com atenção, pois nele coabitam
sofismas e uma verdade dolorosa para a extração
ideológica dos que pontificam nas páginas
de Veja. A mensagem da renúncia ao
cargo da Presidência do Conselho de
Estado foi anunciada no Granma, jornal do
Partido Comunista Cubano. O que Fidel, de
fato, não pode renunciar é ao
papel que já lhe cabe na história.
E, paradoxalmente, é essa impossibilidade
que desnorteia seus detratores da Avenida
das Nações Unidas, 7221, Pinheiros,
São Paulo.
Dois parágrafos depois, Roberto Pompeu
de Toledo continua sua peroração:
"A visão que se tem de Fidel Castro
estará sempre prejudicada para quem
não tem presente a distorção
de escala que envolve sua figura. Ela não
é apenas maior do que os cargos que
ocupa. É também maior do que
Cuba. E, no plano internacional, maior do
que deveria ser a do líder de um país
de pouco mais 100 000 quilômetros quadrados,
11 milhões de habitantes e PIB de 45
bilhões de dólares"
Se adotarmos a definição de
escala da Intenacional Cartographic Association,
a distorção de Veja ultrapassa
qualquer limite admissível de redução
para mostrar a superfície cubana sobre
a configuração geopolítica
do mapa internacional. O que o colunista finge
ignorar é uma realidade que lhe incomoda.
A revolução liderada por Fidel,
Che Guevara e Camilo Cienfuegos promoveu avanços
notáveis em áreas como educação
e saúde pública. Mas, acima
disso, modificou a cartografia imperialista,
mostrando que onde os mapas coloniais desenhavam
precipícios existiam trilhas alternativas
para uma América Latina soberana. É
no rastro dessa descoberta que avançam
Evo Morales (ler entrevista publicada em Carta
Maior) e Rafael Correa. É na direção
dela que aponta a artilharia militar-midiática
do Império e das oligarquias locais
temporariamente desalojadas do poder.
Concluindo, o jornalista afirma que "o
inflado espaço que ocupa se deve em
parte à mística do guerrilheiro,
semeada na época romântica em
que se acreditava que tudo era possível,
e em parte às peculiaridades da política
americana, cujos terrores infantis acabaram
por emprestar-lhe importância maior
do que tinha". Aqui, didaticamente, explique
que a intenção do autor, ao
chamar de "época romântica"
o tempo em que se acreditava na possibilidade
de projetos coletivos, é apresentar
como "realismo" a vida decantada
de sonhos. O servilismo e alinhamento incondicional
como restauração do senso prático..
Se sobrar tempo, peça ao estudante
que ouça a introdução
do podcast de Diogo Mainardi, em 19/02/2008.
Nele, a agressividade confundida com contundência,
descreve Fidel como "mais uma figura
grotesca que some da nossa frente" Alguém
que "depois de renunciar ao mandato,
quer se dedicar apenas ao seu trabalho como
colunista da imprensa. É o lugar ideal
para ele: o colunismo está cheio de
zumbis".
Será interessante analisar um raro
momento. Aquele em que, ao tentar definir
alguém cuja estatura lhe foge à
compreensão rasteira, um colunista
se autodefine com precisão.
Boa aula, caro colega.
Gilson Caroni
Filho é professor de Sociologia das
Faculdades Integradas Hélio Alonso
(Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador
do Jornal do Brasil e Observatório
da Imprensa. Escreveu este artigo para a agência
Carta Maior.