A
direita hoje
Por Emir Sader*
As vitórias eleitorais de Angela Merkel
na Alemanha, de Sarkozy na França e
de Berlusconi na Itália, servem para
lembrar-nos da força da direita hoje
no mundo. Na Europa ocidental, com as exceções
da Espanha e da Noruega, a direita está
no governo. Aqui mesmo, na América
Latina, os governos do PAN no México,
de Uribe na Colombia, são representantes
indiscutíveis da direita latino-americana.
No Brasil, a direita está representada
politicamente pelo bloco tucano-pefelista
e ideologicamente pelas grandes empresas mercantis
da mídia.
O que pensa e proclama a direita hoje, aqui
e nos outros lugares do mundo? Seu grau de
homogeneidade é relativamente grande,
inclusive porque foi ela que formulou o Consenso
de Washington, que justamente propõe
um único esquema mundial para todos
os governos, independentemente do lugar que
ocupem no sistema mundial.
O primeiro dos seus pontos programáticos
é o privilégio do mercado em
relação ao Estado e, em particular,
a qualquer tipo de regulação
estatal, favorecendo a livre circulação
do capital. O que significa o privilégio
do dinheiro em relação aos direitos,
do consumidor em relação ao
cidadão, dos interesses privados em
relação aos interesses públicos.
Um de seus corolários mais importantes
é o papel estratégico que atribuem
às grandes empresas privadas, identificadas
com o dinamismo e a eficiência econômica,
em contraposição ao Estado,
desqualificado como ineficiente, burocrático,
corrupto.
Como contraponto, a direita execra os gastos
públicos e os impostos para financiá-los.
Não importa quem perde, de quem se
dessolidarizam, prega sempre menos impostos,
mais isenções fiscais, créditos
estatais e subvenções para eles,
porém menos funcionários públicos,
menos gastos nos seus salários, recursos
sempre menores para políticas sociais.
Em outras palavras, pregam acentuar o caráter
de classe, de privilégio do Estado
para a acumulação privada do
grande capital e menos ou nada para atender
aos direitos da grande massa popular de cada
país.
A direita está pelas alianças
- sempre subordinadas, pela força que
tem esses possíveis - com as grandes
potências do centro do capitalismo,
às expensas das alianças latino-americanas
e no Sul do mundo. São adeptos da grande
imprensa privada - isto é, não
pública, da imprensa mercantil - e
contrários à mídia pública,
democrática.
A direita está a favor do impulso
geral às exportações,
favorecendo atualmente em particular as de
soja, com transgênicos, em detrimento
da economia familiar, da expansão do
mercado interno, preferindo sempre que esta
se dê na direção do consumo
suntuário e não do consumo popular.
Por isso detesta as políticas de distribuição
de renda, os aumentos de salários,
a elevação do nível de
emprego, os contratos formais de trabalho,
o fortalecimento e extensão da educação
e da saúde pública - privilegiando
sempre a educação e a saúde
privadas -, dos programas de habitação
popular, de saneamento básico, de cultura
popular, de democratização do
acesso às universidades - como as políticas
de cotas -, de rádios comunitárias,
entre outras.
Odeia os movimentos sociais, a reforma agrária,
a demarcação de terras indígenas,
a sindicalização dos trabalhadores,
os programas de alfabetização
popular, a politização como
forma de acesso à consciência
social do que passa no país e no mundo.
São conservadores, gostam do mundo
tal qual eles mesmos o produziram ao longo
de toda a história, com todas suas
iniqüidades, e lutam ferozmente contra
qualquer mudança nas relações
de poder que afete seus interesses.
A direita não gosta da América
Latina, do movimento popular, não gosta
de falar do imperialismo, das guerras que
ele promove, da exploração,
da discriminação, da alienação,
da opressão, do capitalismo. Não
gosta do Brasil, execra o país fazendo
sempre comparações depreciativas
do país - arte em que Fernando Collor
e FHC foram exímios.
Em suma, a direita é de direita -
se me permitem a tautologia. Resta que a esquerda
seja de esquerda, para combatê-la e
fazer avançar a democracia política,
a justiça social, a soberania nacional
e a integração regional.
* Emir Sader é professor da Universidade
do estado do Rio de Janeiro (Uerj), coordenador
do Laboratório de Políticas
Públicas da Uerj e autor, entre outros,
de "A vingança da História".
Fonte: Agência Carta Maior