A R T I G O

 

 

 

Os incomodados que mudem o mundo

Por Neide Fonseca*

Um dos ditados mais conhecidos do mundo capitalista e que acirra o individualismo é: "os incomodados que se mudem". Ainda bem que uma parcela da humanidade entende o contrário e com suas atitudes individuais ou coletivas mudam definitivamente o percurso da historia.

Geng Liufen é uma mulher chinesa, com o diploma do ginasial, depois de alguns anos de casada foi morar na aldeia natal de seu marido, uma aldeia de nome Zuji. Geng levou um choque ao ver o local, sua vontade foi de sair correndo, ir embora deixar marido e filha para trás. Por três vezes tentou ir embora, aquele lugar era o fim do mundo, não havia comunicação com o mundo exterior. A pobreza era extrema, as mulheres eram totalmente dependentes, não saiam da aldeia sozinhas nunca, nem tinham acesso à saúde e educação.
Tentou fugir mais a consciência não deixava, estava muito incomodada com tudo aquilo e por fim pensou: "os incomodados que mudem o mundo". E partiu para a luta.

Geng todos os dias após seu trabalho reunia as mulheres da aldeia em sua casa e as alfabetizava. Organizou também as mulheres para obterem remédios.

Contudo, aquele mundo precisava de mudanças mais radicais, então Geng mobilizou as mulheres e ensinou para elas o valor da moeda fazendo-as, inclusive, distinguir notas falsas das verdadeiras para não serem enganadas, e assim elas puderam ir à cidade vender os produtos de suas plantações. Ao negociar suas mercadorias a aldeia se desenvolveu e hoje elas pertencem à Associação das mulheres do campo.

Contei essa pequena historia, porém verídica, porque ao ver pela televisão que na véspera do Dia Internacional da Mulher, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça aprovou a concessão de indenizações a sete mulheres que foram perseguidas pelo regime militar entre 1946 e 1985. Percebi, então, que mulheres desse período também puseram em prática o mesmo pensamento de Geng: "os incomodados que mudem o mundo".

Foi durante o regime militar que o ditado "os incomodados que se mudem" ganhou nova roupagem quando Emílio Garrastazu Médici lançou a propaganda com o slogan: "Brasil ame-o ou deixe-o".

Durante esse período da nossa história, com nossos direitos fundamentais suspensos, nas escolas, nas fábricas, nas ruas, na imprensa, nos teatros, sentíamos o peso do olhar da ditadura a nos vigiar. Ninguém estava seguro.

Embora muitas pessoas tenham sido expulsas, desaparecidas, torturadas e até assassinadas a frase "quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil", não calou a voz de homens e mulheres, que tomaram a mesma decisão que Geng Liufen: "os incomodados é quem devem mudar o mundo".

Neste mês de março quero render minhas homenagens as mulheres que combateram a ditadura militar. Heroínas quase nunca lembradas pela história oficial, elas deram uma contribuição inestimável para a democracia brasileira.

Na sua maioria mulheres anônimas, elas hoje se fazem presentes na minha memória, e eu as revencio neste artigo:

Alceri Maria Gomes da Silva: era gaúcha; operária e liderava um movimento local contra a ditadura militar, teve sua casa invadida, foi metralhada na frente de sua família. Tinha 27 anos.

Ana Maria Nacinovic Correa: era carioca; estudava Belas Artes na UFRJ e ingressou no movimento estudantil na Aliança Nacional Libertadora. Denunciada pelo dono do restaurante Varella, ao DOI/CODI, enquanto almoçava, foi morta a queima roupa, por um policial. Teve seu corpo agredido pelos oficiais durante horas. Tinha 31 anos.

Ana Rosa Kucinski Silva: era paulista; professora universitária do Instituto de Química da Universidade de São Paulo, militante da Aliança Nacional Libertadora. Sumiu na prisão, junto com seu marido Wilson Silva. Até hoje está desaparecida.

Áurea Elísia Pereira Valadão: era mineira; estudava Física, no Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, filiou-se clandestinamente ao Partido Comunista e mudou-se para o Araguaia, no Tocantins, para fazer parte de um movimento de guerrilha. Trabalhava como professora quando foi presa e morta. Tinha 24 anos.

Dinaelza Santana Coqueiro: era baiana; estudava geografia na Universidade Federal da Bahia e era militante do Partido Comunista. Também morreu no Araguaia. Tinha 24 anos.

Gastone Lúcia Beltrão: era alagoana; militante do Partido Comunista. Por ter estudado em Cuba foi denunciada aos órgãos de repressão brasileiros. Foi morta em São Paulo pela equipe do delegado Sérgio Fleury. Oficialmente, está desaparecida.

Helenira Resende: era paulista; estudante de Letras na Universidade de São Paulo, começou a militar no movimento estudantil, foi vice-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) presa por duas vezes, conseguiu um habeas corpus um dia antes do Ato Institucional nº. 5 passando a viver na clandestinidade. Foi fazer seu trabalho político na região do Araguaia, no sul do estado do Pará, onde morreu a golpes de baioneta num enfrentamento com os militares. Tinha 28 anos.

Elisabete Teixeira: paraibana; fundadora da Liga Camponesa de Sapé em 1958, juntamente com seu marido, João Pedro, tornou-se um símbolo da resistência dos trabalhadores rurais nos anos 60 no Nordeste do Brasil. Com o golpe militar, entrou na clandestinidade. Havia sido dada como morta pela repressão política quando, em 1981, apareceu no filme Cabra Marcado para Morrer.

Dentre várias, essas são algumas mulheres, que durante o período triste de nossa história foram as primeiras a entrar em cena, seja participando das guerrilhas urbanas ou rurais, seja enfrentando os órgãos de repressão à procura de familiares, amigos, namorados, presos ou desaparecidos, ou ainda participando ativamente em organizações clandestinas, sindicatos, movimento estudantil.

Por fim, minha homenagem às sete mulheres que vivas, puderam ter o reconhecimento do Estado brasileiro, pela luta e pela resistência contribuiram para mudar o rumo da história:

Clara Charft: perseguida pelo governo foi obrigada a deixar a profissão de aeromoça.

Nancy Mangabeira Unger: em 1969 foi expulsa da Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro sob a acusação de subversão, foi presa e mutilada.

Estrella Dalva Bohadana Bursztyn: sofreu perseguição política, foi presa e torturada.

Halue Yamaguti de Melo: costureira, militante do PCB, foi presa quatro vezes, uma delas com seus filhos adolescentes, e torturada.

Ana Wilma Oliveira Moraes: era secretária da Folha da Manhã quando foi presa e torturada.

Beatriz Arruda: foi exilada no Chile, com o marido, em 1969. Só voltou ao Brasil em 1979, com a Lei de Anistia.

Maria do Socorro de Magalhães: em 1972, foi presa pela polícia e torturada.

Viva a coragem daquelas e daqueles que ainda hoje se incomodam e tentam mudar o mundo!

Neide Aparecida Fonseca é diretora da Contraf-CUT e presidenta da Uni Américas Mulheres