O BC (banqueiro central) do Brasil
Por Carlos Cordeiro*
Para dar o benefício da dúvida,
é difícil entender a quem serve
o Banco Central do Brasil e o Copom (Comitê
de Política Monetária). Já
há algum tempo era evidente a deterioração
da balança de pagamentos, diferença
entre o que entra e o que sai do país
em divisas cambiais. O principal motivo para
isso: o dólar subvalorizado, a menos
de R$ 1,70, praticamente repetindo o erro
do "real forte" do governo Fernando
Henrique Cardoso, quando a moeda nacional
chegou a valer mais que a norte-americana.
Pois agora, com a queda da balança
comercial com o aumento das importações
muito maior que o das exportações,
e a deterioração das contas
externas, esperava-se, segundo a lógica
do câmbio flutuante, que a cotação
do dólar passasse a valorizar-se por
conta da velha lei da demanda e oferta. Com
menos dólares, a moeda norte-americana
se valorizaria, corrigindo a distorção.
Essa lógica básica só
era desmentida por um único detalhe:
os bancos brasileiros, em sua maioria, estavam
comprados em dólar. Quer dizer, apostavam
que o real não seria desvalorizado.
Como banqueiro não dá ponto
sem nó, era de estranhar esse movimento.
Poucos dias depois, o Banco Central, com a
desculpa de conter a inflação
aumentou a taxa de juro básica da economia,
a Selic. Coincidentemente, a única
medida possível para manter a baixa
cotação do dólar. Depois,
veio a concessão do grau de investimento
por uma agência internacional de risco,
que aumentou ainda mais a entrada de dólares
no país.
Mas voltando aos juros, a taxa que já
era uma das maiores do mundo, passou a ser
a mais interessante do planeta para todos
os especuladores do cassino global. Com o
país estável economicamente
e com as taxas diminuindo na maior parte dos
países, principalmente nos Estados
Unidos, em que para combater a crise imobiliária
o FED (Banco Central de lá) baixou
a taxa de juros para os menores níveis
da história, passou a ser a bola da
vez trazer o dinheiro para o Brasil e ganhar
com o que se chama de arbitragem de juros,
pura especulação.
Não há aqui nenhuma denúncia
de que o banco Central fez algo combinado
com os bancos, até porque esse tipo
de coisa, mesmo se existir, dificilmente pode
ser provado. Mas é natural pensar que
os bancos conhecem muito bem como funciona
a cabeça dos burocratas do BC, principalmente,
porque praticamente todos trabalharam nos
próprios bancos, vão trabalhar,
ou, no mínimo, estudaram nas mesmas
universidades de seus economistas-chefes e
aplicam a mesma cartilha obtusa sobre a economia.
Se alguém dúvida da causa e
conseqüência dessas medidas, o
Brasil teve o pior primeiro trimestre da história:
com 10,757 bilhões de dólares
de déficit nas transações
correntes. Com sua incapacidade para admitir
erros na condução da política
econômica, a direção do
BC vem insistindo, segundo o diretor Altamir
Borges, que o déficit é "perfeitamente
financiável" pelo ingresso de
investimentos estrangeiros diretos.
Quem tem memória, lembra-se que era
a mesma cantilena da época de Gustavo
Franco à frente do Banco Central tucano.
O final da história foi um ciclo de
especulação em que os juros
básicos chegaram a mais de 45 % ao
mês, mas não foram capazes de
deter o derretimento do real em poucos dias
em janeiro de 1999. Claro que alguém
ganhou muito dinheiro com isso.
A atuação do BC como banqueiro
central do Brasil também pode ser notada
no lucro recorde dos bancos e mesmo em sua
regulamentação. Depois de anos
de reclamações em relação
às tarifas, no ano passado o BC resolveu
regulamentar essa cobrança. Determinou
normas que, em primeiro lugar, só valeriam
seis meses depois, dando tempo para que as
empresas "se adaptassem".
Quando a regulamentação entrou
em vigor, no dia 30 de abril deste ano, o
que fazem as empresas? Simplesmente passam
por cima da principal medida, que era a criação
de um pacote básico, em que todos os
bancos deveriam oferecer os mesmos serviços,
com a mesma nomenclatura, para facilitar a
comparação e a concorrência.
De maneira "esperta", utilizando
brechas da regulamentação, os
bancos passaram por cima da norma criando
pacotes com valores abaixo do pacote mínimo
determinado pelo BC, com serviços diferenciados
em cada instituição, para não
permitir a comparação, segundo
denúncia do Instituto de Defesa do
Consumidor. É claro que entre a criação
da norma e a atuação dos agentes
econômicos sempre existe distância
e não é possível prever
tudo.
Mas alguém ouviu algum tipo de manifestação
do Banco Central para coibir esse abuso em
relação à norma? Ou do
Copom para em suas próximas atas fazer
terrorismo em relação aos bancos
como faz o tempo todo em relação
com o aumento da inflação, fantasma
que permite aumentar juros de maneira irracional.
Provavelmente não. Seria leviano afirmar
que isso ocorre apenas porque o presidente
do Banco Central, Henrique Meirelles, é
um ex-presidente do Banco de Boston. Mas não
é difícil nem leviano afirmar
que as decisões do BC e do Copom favoreceram,
como nunca, os bancos, permitindo lucros recordes
em cima de lucros recordes a cada balanço
divulgado.
*Carlos Cordeiro é secretário
geral da Contraf-CUT
Fonte: Contraf-CUT