A campanha dos financiários
e a construção do ramo
Por Miguel Pereira*
A CUT nasceu questionando os pilares da estrutura
sindical oficial vigente, cujo principal problema
é a ausência de garantia da liberdade
sindical. Ou seja, não é fruto
da vontade dos trabalhadores.
Pior, dificulta essa organização
de forma legítima.
Poder normativo da justiça do trabalho,
financiamento compulsório, unicidade
sindical, interditos proibitórios,
impedimentos ao livre exercício de
greve, uso do policiamento ostensivo - são
graves interferências do Estado brasileiro
na organização dos trabalhadores.
Mesmo após seu reconhecimento legal
neste ano, após 25 anos de sua fundação,
a CUT e toda sua estrutura ainda não
conseguiu levar a cabo uma reforma sindical
que efetivamente garanta a democracia sindical.
É óbvio que sabemos porque
isso não ocorreu. Apesar do capitalismo
acusar todas as outras formas e estruturas
fora de sua concepção de serem
"ideológicas", e somente
ele não ser, as sociedades são
estruturadas a partir da relação
das duas classes: capital e trabalho. E esse
conflito continua mais presente do que nunca
no mundo, e mais particularmente no Brasil,
em razão de nossas raízes históricas,
culturais, sociais e econômicas, diante
do novo contexto político de vivemos.
É nessa conjuntura que iniciamos mais
uma campanha salarial dos financiários,
com data-base em 1º de junho.
Após contarem com várias dezenas
de milhares de trabalhadores, atualmente esaa
categoria registra menos de 10 mil trabalhadores.
Isso porque neste número já
estamos contabilizando os trabalhadores da
BV Financeira e da Aymoré Financiamentos,
movimentos recentes de organização
deste segmento.
Isso significa uma menor importância
desse segmento ou da campanha salarial desses
trabalhadores? Esses trabalhadores desapareceram
ou a atividade econômica perdeu importância?
Para todas as perguntas a resposta é
NÃO. Em todos os casos, tanto a presença
desses trabalhadores quanto a expansão
e expressão das empresas de crédito,
financiamento e investimento, aumentaram.
É que, se utilizando de "entendimentos"
que lhes são favoráveis para
realização de lucros, as empresas
que atuam no setor passaram a se considerar
Promotoras de Vendas, "enquadrando"
seus trabalhadores como promotores de vendas,
e não mais financiários.
Ora, qual a diferença de atuação
e objetivo econômico entre elas? Nenhuma.
O que são Fininvest, Taií, Losango,
Finasa etc? Continuam tendo a mesma natureza
econômica, ou seja, são empresas
de crédito, financiamento e investimento.
Continuam praticando intermediação
financeira. Tanto é assim que até
os grandes bancos entraram nesse jogo, utilizando
essa estratégia de reorganização
do capital financeiro para exponenciar seus
lucros.
A tese dessas empresas a meu ver são
tão ilegítimas que não
encontram acordo nem mesmo no setor econômico.
Vejamos as decisões da BV Financeira
e da Aymoré Financiamentos (Banco Real),
que preferiram não correr risco jurídico
e registraram os trabalhadores como financiários.
Temos que registrar que na CBO (Classificação
Brasileira de Ocupações) realmente
existe a figura dos promotores de vendas no
setor de comércio. Só que o
conteúdo dessa atividade é a
demonstração de produtos em
feiras, stands, departamentos. Isso não
é o objetivo social de uma financeira.
Ademais, o artigo 511 da CLT, em seus parágrafos
1º e 2º, em pleno vigor, define
o conceito de categoria econômica e
profissional:
§ 1º A solidariedade de interesses
econômicos dos que empreendem atividades
idênticas, similares ou conexas, constitui
o vínculo social básico que
se domina categoria econômica.
§ 2º A similitude de condições
de vida oriunda da profissão ou trabalho
em comum, em situação de emprego
na mesma atividade econômica ou em atividades
econômicas similares ou conexas, compõe
a expressão social elementar compreendida
como categoria profissional.
Ora, se para nós não resta
a menor dúvida de que estamos falando
da mesma categoria profissional e econômica,
para os trabalhadores sobrou a precarização
de seus contratos de trabalho e das condições
de vida. O piso salarial da categoria, hoje
acima dos R$ 900,00 para uma jornada de 6
horas, se transformou para esse grande contingente
de trabalhadores numa remuneração
em torno de R$ 450,00, com uma jornada de
8 horas.
Portanto, fica muito evidente a quem serve
esse tipo de estrutura sindical.
Somente os trabalhadores ligados a esse setor
estão prejudicados?
Claro que não. Perdemos todos, inclusive
a sociedade, que fica mais empobrecida diante
dessa enorme concentração de
renda. Perdem todos os demais trabalhadores,
que passam a ter seus paradigmas rebaixados.
Para alterar essa realidade nós criamos
a Contraf-CUT, o que nos causa grande orgulho,
por causa de seu objetivo estratégico
e sua luta por justiça social.
Por conta disso conclamo todos os dirigentes
sindicais, bancários ou não,
a se empenharem ao máximo na campanha
salarial dos financiários, cuja principal
reivindicação é a aplicação
da mesma convenção a todos os
trabalhadores.
Não há nada de mais nisso:
tratar os iguais, igualmente.
Estamos recorrendo aos órgãos
legislativos, administrativos, executivo e
judiciário para demonstrar nossa verdade.
A continuar essa estruturação
empresarial e não garantir a livre
organização dos trabalhadores,
posso considerar essa forma de realização
de lucros como enriquecimento ilícito.
Mas o fundamental neste momento é
a legitimação de nossas propostas
e organização junto aos trabalhadores
e sociedade.
Portanto, companheiros e companheiras, indignai-vos
e vamos à luta!
*Miguel Pereira é diretor
executivo da Contraf-CUT
Fonte: Contraf-CUT