Carta a um sindicalista

Maceió (AL), 01.08.2005

 Ao

Sr. Sérgio Braga Vilas Boas

 Saudações sindicais,

Reverencio a sua pessoa, pois, sei ser um combatente colega de luta pelos interesses dessa classe em extinção, se assim posso dizer. Reverencio o Sindicato dos Bancários do Estado de Alagoas por saber ser uma das trincheiras de luta de nossa categoria. Digo-lhe porém Camarada, Eu e a base bancária estamos decepcionado com esse Governo que nós escolhemos e que continua recebendo apoio de nosso Sindicato. Eu e a base estamos decepcionado com a corrupção que era tão combatida pelo partido que tem como Presidente um de seus criadores. Esse ato de corrupção que me veio por e-mail remetido por você é o mínimo diante dos atos praticados por esse Governo. Queiramos Nós, não existir envolvimento dos atuais Diretores da PREVI, todos filiados a esse Partido que jogamos no poder. Essa é a desconfiança dominante na categoria bancária, principalmente em mim. Digo isso porque me escrevi para ser colaborador da PREVI e fui eliminado apesar do meu currículo, que digo, não deve ser pior do que o de muitos escolhidos para o mister. Agora sei, talvez tenha sido preterido por saberem que Eu não pactuaria com fornecimento de valores para o “mensalão”. Espero, que na hora do enfrentamento mais uma vez dirigido contra os interesses dos empregados do Banco do Brasil, se consiga um melhor ganho e que, juntamente com esse melhor ganho venha também de uma vez por todas a derrubada da parcela PREVI, tão esperada por aqueles que querem se afastar pela aposentadoria dessa Instituição secular. Não adianta soltar panfletos como o que já recebi nas nossas ruas e que não se sabe de onde veio o dinheiro para confecciona-los. Diga-se, um tratado de entrega de nossas riquezas ao capital internacional através dos Bancos Nacionais e Internacionais. Nós brasileiros que tivemos esperança em melhores dias para a população estamos decepcionados com essa política nefasta e de sanguessuga. Veja-se, que em um dos quadros, apresenta aumentos no percentual de empréstimos as pessoas de baixa renda sem dizer o porquê. É querer tapar o sol com a peneira como diz o ditado popular. É querer acabar com os minguados salários dos aposentados de baixa renda com os já famosos descontos em folha. Diga-se garantia total para o grande capital e destruição dos combalidos aposentados. O que devia ter feito não fez. Atrelar o aumento salarial dos aposentados da previdência geral ao aumento do salário mínimo. Veja-se que é uma total discrepância, aumenta-se a arrecadação com base no salário mínimo, porém, não se aumenta o pagamento das aposentadorias com base nele. E digo mais, com apoio no aparelho judiciário que nega constantemente o direito de igualdade tão pregado nas salas de aulas e conferências. Já o deles, deve ser atrelado aos salários de quem fica na ativa, pois só assim, quando se aumenta o salário dos demais agentes políticos, os já tão pobres e combalidos aposentados que fazem a nossa Justiça também é aumentado, quer sejam eles aposentados quer sejam da ativa. E ai daquele que vá de encontro a tal discrepância. Essa falcatrua deve ser denunciada. É a mesma falcatrua que dá direitos aos agentes políticos de terem carros em suas portas pagos pelos impostos daqueles que mais produzem em nosso país. Uma vergonha Nacional. Enquanto isso os trabalhadores andam de ônibus caindo os pedaços sem o mínimo de conforto e arriscando-se a morrer pela falta de segurança que nosso transporte urbano e inter-urbano nos oferece. Pensei que fossemos mudar isto. Enganei-me mais uma vez. Pergunto-me: Onde buscar outra vez esperança para ver isto outra vez.

Espero que o combativo Colega que ora esta na direção de nosso Sindicato busque outros caminhos que não o deste Governo incapaz de resolver os nossos problemas sociais.

Finalmente, digo, se Colega não tiver coragem para colocar no nosso próximo informativo a presente carta, pelo menos se posicione remetendo-me resposta.

Atenciosamente,

Marcelo Araújo Acioli - Bancário Aposentado

 

 Apreço ao sindicalista

Maceió, 02 de agosto de 2005.

Caro Marcelo,

 Agradeço sobremaneira as carinhosas e respeitosas palavras dirigidas a mim e ao Sindicato dos Bancários, e espero continuar sendo merecedor de tal apreço.  Reconheço também em você, um dos imprescindíveis militantes de esquerda descritos por Brecht, e tenho grande respeito pelo seu posicionamento.

Permita-me Marcelo, chamá-lo de companheiro, pois a avassaladora maioria de nós ainda pode usar esta palavra com galhardia, e no seu significado está expresso o porquê: aquele que reparte o pão durante a jornada. E muitas vezes o fizemos juntos em memoráveis lutas travadas em benefício da categoria bancária.

Com a carta que você nos enviou, estaremos inaugurando a sessão de cartas que abriremos em nosso site a partir de agora.

E, em respeito à sua indignação, gostaria de expor minha humilde opinião como segue abaixo.

 O PT

Não quero aqui fazer análise de conjuntura ou me referir aos fatos que nos jogam na vala comum do “todos são iguais”.  Já existem analistas aos borbotões para fazê-lo, e com muito mais capacidade e informações do que eu, que não sou nada além do que um dos perplexos 840 mil filiados. Perplexo não pelo caixa dois em si, mas por termos usado, sem juízo das intenções, os mesmos instrumentos da execrável direita que vive da conspiração e da sangria de vidas pela sua perpetuação no poder. Em determinados momentos, no mínimo, a nossa postura foi fascista e maniqueísta, olvidamos os deveres prescritos pela ética a fim de realizarmos os nossos valores.

Não sou “petista” de primeira hora. Com formação marxista, à época de sua fundação, ainda estudante, militava nas hostes do velho PCB, donde vem praticamente toda a minha família pelo lado materno, e onde iniciei minha militância aos 12 anos de idade em 1974 durante o governo Geisel. Prisões e tortura sempre fizeram parte das nossas conversas diárias e do nosso dia a dia durante os anos de ferro da ditadura.

Mas, voltando ao eixo, o PT é diferente! Não nasceu de uma reunião de quadros políticos, mas sim da vontade dos movimentos sociais de criar um instrumento partidário de massa, eleitoralmente viável, que pudesse disputar com as elites um projeto capaz de chegar ao governo e ao poder, e inverter a lógica filosófico/moral e a econômica da direita, mesmo considerando as condições estabelecidas pela democracia burguesa.

O PT constituiu-se no meio, e da diversidade na mais ampla acepção que esta palavra possa ter. Anticapitalista, mas reconhecendo a democracia como um bem universal; revolucionário, mas capaz de enxergar a concretude sem prazeres virtuais; sem nenhum livro de regras, mas considerando os desejos, verdades, afetos, vontades e a busca incessante do homem por felicidade! A sua irracional “desunião interna” sempre pôs boquiaberta a direita que nunca conseguiu entender como essa “coisa” chegou aonde chegou, a apenas 25 anos de vida.  

A minha impressão é que o PT sempre existiu algures e cronologicamente espraiado. Todavia só no início da década de 80 é que se juntou para formar o maior projeto político de esquerda jamais visto neste país. Nele está contido um pedaço da alma e do sangue de todos aqueles – celebridades e anônimos – que contribuíram com a perpetuação dos ideais republicanos e de liberdade, paz e fraternidade neste canto do mundo.

 A CRISE

 Quando uma utopia desmorona, é toda uma circulação de valores que regulam a dinâmica social e o sentido de suas práticas que entra em crise. É esta a crise que vivemos. E, neste sentido muitos de nós passou a declamar para si próprio:   E agora, José?A festa acabou/a luz apagou/o povo sumiu/a noite esfriou/e agora, José?......Está sem mulher/está sem discurso/está sem carinho...não veio a utopia/e tudo acabou/e tudo fugiu/e tudo mofou/E agora, José?

Se um sonho não se completa, isto não quer dizer que tudo tenha sido ou seja doravante vão e que só nos resta submeter-nos ao curso das coisas. Isto quer dizer que temos de continuar a construção, pois enquanto continuarmos prisioneiros do que se esvai, seremos incapazes de reunir o potencial de liberação que a transformação ora em curso contém, e igualmente incapazes de a ela imprimir um sentido apropriado.

Empunhamos como ninguém jamais o fez neste país a bandeira da ética e dos ideais republicanos. Sofremos; fomos perseguidos; mudamos de nome, comemos o pão que o diabo amassou. E agora nos vemos obrigados a processar em nossas fileiras uma depuração extremada! É duro ter de amputar uma parte do corpo que gangrenou, mas é preciso!

Todavia, há algo além da ética: a luta de classes. É óbvio ululante que nenhum de nós, nunca, em tempo algum, defendeu, ou esta agora a defender a tese maniqueísta de que os fins justificam os meios! Porém jamais poderemos esquecer da agressão e da barbárie praticadas pela direita no Brasil e mundo afora. Das ruas ensangüentadas do Iraque, dos 924 milhões de favelados do mundo, dos 227 milhões de miseráveis da América Latina onde seis novos pobres são gerados a cada minuto!

E creio que os trabalhadores brasileiros não devem abandonar seu principal instrumento de luta política.  A alternativa que se nos apresenta agora é a “debacle” de qualquer esperança de reconstrução. Que expiem os que têm de expiar! Que se corte fora a necrose! Mas não precisamos apertar a nossa própria garganta, jamais colocar o cânhamo em nosso proprio pescoço, pois ainda quero ter pra mim o futuro, amar a perspectiva, além de dormir sossegado no chão da primeira praça que encontrar!  Que além de simplesmente ser duro e não morrer, José grite, gema, toque a valsa vienense!

E, continuando a buscar em Drummond as palavras a serem ditas, digo:

 Mãos Dadas

 Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

 

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

 O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.

 O GOVERNO

Lembramo-nos, que no ano de 2002, quando fervilhava no Brasil, naquele ano eleitoral, o debate político, as esquinas, os bares, qualquer lugar que fosse servia de palco. Precisávamos mudar o Brasil, precisávamos afastar de dentro do seio do estado brasileiro a construção ideológica que ali se instalara, e permanecia incrustada em sua burocracia.

Então dizíamos, só temos uma saída:  só uma grande aliança das forças progressistas com o movimento social, poderá dar sustentação ao novo governo para inverter a tese ideológica que até então se sustentava. Conosco vinham setores de centro e da direita, que inconfiáveis, pois haviam servido de base para todos os governos anteriores, não podiam ser a nossa única opção de alianças, o projeto era nosso, e tinham de ocupar um lugar secundário.      

Para encurtar a conversa, chegamos lá, com a “carta aos brasileiros” e tudo o mais. Sabíamos que concessões seriam feitas à direita, que teríamos problemas com o FMI, que precisávamos de uma transição, que seria preciso paciência! Afinal não havíamos feito a revolução! A composição do congresso nos era desfavorável, e os grandes estados haviam ficado com os adversários. Enfim, nenhuma facilidade.

Passados dois anos e meio, os trabalhadores voltaram ás ruas, e gravaram sua sina histórica, pois passaram a acreditar novamente, a amar a perspectiva. É óbvio que sonhávamos com algo melhor, com alguma coisa que fizesse lavar a alma dos militantes, principalmente daqueles que vêm de longe, e não gostariam de envelhecer sem ternura, e  com a impressão que da utopia nada mais resta. 

Ocorreram mudanças. A contemporaneidade nos coloca na melhor situação econômica dos últimos dez anos, apesar da ortodoxia, que no passado não nos levou nada, hoje nos fez sair do FMI; o fome zero, que se pudéssemos contar com honestidade dos prefeitos seria muito mais eficaz, é o maior programa de combate à fome do mundo, não obstante as críticas contumazes que tem recebido; o Brasil, que há dois anos não passava de lacaio do primeiro mundo em sua política exterior, impõe uma nova postura, cresce em credibilidade e respeito; Não foram criados 10 milhões de empregos, mas há retomada de postos de trabalho, e principalmente, com carteira assinada; sem embargo das críticas aqui e acolá, muitas delas justas, implantou-se políticas afirmativas nas universidades através das cotas, e há ações no sentido de abrir espaços a mais camadas sócio-econômicas como partícipes do direito de se educar, pois o ensino superior público é inacessível aos pobres; e tantas outras coisas mais.

Todavia há algo que nos tem incomodado muito. Nós trabalhadores bancários, no entendimento de que diante da nossa hipossuficiência frente ao capital financeiro internacional, além de buscar credibilidade no exterior, promover os ajustes, que sem ruptura da institucionalidade são lentos, e sua negociação é difícil, é preciso recrudescer aquela aliança com a sociedade civil organizada. É preciso ter os setores organizados como parceiros. É preciso gestos do governo neste sentido. Senão,  vejamos:

1.      Não se pode desagradar os latifundiários na efetivação da reforma agrária, mas desagradar os trabalhadores sem-terra, afinal  já estão acostumados a esperar, isso pode;

2.     Não  se pode negociar melhores condições de pagamento das nossas obrigações junto aos banqueiros nacionais e internacionais, mas cortar as verbas destinadas aos assentamentos para a reforma agrária, pode;

3.      Não se pode corrigir a tabela do IR pessoa física, para aliviar a situação dos assalariados de classe média, afinal não podemos reduzir a carga tributária que recai sobre os trabalhadores, em virtude do superávit fiscal, e há  de se mantê-la regressiva e terrivelmente injusta, mas a regulamentação do IGF (Imposto sobre as Grandes Fortunas), e o aumento da taxação sobre o ganho especulativo da banca nacional e internacional,  nem pensar!

4.      Todos são a favor da bancarização da população brasileira, inclusive nós. Mas permitir a farra do vilipêndio à relação capital/trabalho nos correspondentes bancários, praticada inclusive pelos bancos públicos, pelo setor mais privilegiado da economia brasileira, é uma excrescência;

5.      Não se pode quebrar os acordos feitos com a banca, mas os feitos conosco pode, vide a privatização do banco do estado do Maranhão, e as praticamente certas privatizações dos Bancos dos Estados do Piauí e do Ceará;       

6.      Pode-se admitir os contratos obtusos, e abusivos que permeiam a relação do povo brasileiro com as empresas de telefonia, planos de saúde, energia elétrica, afinal herdamos esses contratos, só nos resta cumpri-los. Porém estabelecer uma política salarial que equilibre a negociação coletiva, principalmente no que se refere aos milhões de trabalhadores brasileiros não organizados em sindicatos, seria indexar a economia e por em risco a estabilidade, a moeda, e etc.;

7.      Não se pode perder o apoio da centro-direita: do PP, do PMDB,  e do PTB. Tudo bem, são necessários à governabilidade, mas do PDT, PPS, PCB , PV, aliados históricos, e parte do próprio PT, pode.

 Enfim, não queremos assistir uma experiência histórica como esta escapar pelo ralo do banheiro, sem nenhuma luta para salvaguardá-la como a primeira de uma série de tantas outras, pois se esta tombar, temos a certeza que o degredo será nossa casa.

 Sérgio Braga Vilas Boas