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ORIGEM
DOS SINDICATOS
Altamiro
Borges
Desde a
divisão da sociedade em classes, após a superação da
comuna primitiva, que a história das sociedades é marcada
pela luta entre explorados e exploradores. Isto ocorreu no
sistema escravista, no modo de produção asiático, no
feudalismo e ocorre até hoje no capitalismo. É nesse
último sistema econômico, entretanto, que a luta de
classes atinge toda a sua plenitude.
O
sindicato, objeto do nosso estudo, é um fenômeno típico
desse sistema. Ele só surge no modo de produção
capitalista. A palavra deriva do francês – syndle -, que
significa “representante de determinada comunidade”. Com a
queda do feudalismo na Europa, num longo processo iniciado
a partir do século 17, a sociedade se divide claramente em
duas classes. De um lado a burguesia. Dona dos meios de
produção – instalações, máquinas, matérias-primas, etc. O
termo burguesia deriva de burgos, que eram as pequenas
localidades nos arredores dos feudos onde viviam os
comerciantes e os artífices – os germes dos futuros
industriais. Do outro, o proletariado, desprovido de tudo,
obrigado a vender sua força de trabalho aos capitalistas.
A expressão proletariado vem do latim, da antiga Roma e
designa os cidadãos que viviam a beira da miséria e que
tinham uma prole numerosa.
Lênin,
dirigente da revolução russa de 17, sintetiza de maneira
simples as características desse sistema. “Denomina-se
capitalismo a organização da sociedade em que a terra, as
fábricas, os instrumentos de produção, etc., pertencem a
um pequeno número de latifundiários e capitalistas,
enquanto a massa do povo não possui nenhuma ou quase
nenhuma propriedade e deve, por isso, alugar sua força de
trabalho. Os latifundiários e industriais contratam os
operários, obrigando-os a produzir tais ou quais artigos,
que eles vendem no mercado. Os patrões pagam aos operários
exclusivamente o salário indispensável para que estes e
suas famílias mal possam subexistir. Tudo o que o operário
produz acima dessa quantidade de produtos necessária a sua
manutenção, o patrão embolsa: isso constitui seu lucro.
Portanto, na economia capitalista, a massa do povo
trabalha para os outros, não trabalha para si, mas para os
patrões, e o faz por um salário. Comprende-se que os
patrões tratem de reduzir o salário; quanto menos
entreguem aos operários, mais lucro lhes sobra. Em
compensação, os operários tratam de receber o maior
salário possível para poder sustentar sua família com uma
alimentação abundante e sadia, viver numa boa casa e não
se vestir como mendigos. Portanto, entre patrões e
operários há uma constante luta pelo salário”.
É dessa
luta cotidiana, inerente ao capitalismo, que surgem as
primeiras formas de organização dos trabalhadores.
Elas
nascem como resultado do esforço espontâneo dos operários
para impedir ou atenuar a exploração. Não aparecem por
inspiração de “subversivos”, como a burguesia propaga, mas
sim por uma necessidade natural dos que vivem de salário.
Para elevar os seus lucros, o capitalista necessita
extrair o máximo de mais-valia, que é o trabalho excedente
não repassado ao operário na forma de salário. Essa é a
lógica do sistema, onde a concorrência leva os empresários
a uma incessante busca por maiores lucros – com a redução
dos custos operacionais e a elevação da produtividade. Por
sua vez, os trabalhadores têm a necessidade de lutar pela
diminuição da taxa de mais-valia, pelo aumento do seu
poder aquisitivo, e por condições mais humanas de
trabalho. Nessa luta, o operariado conta com a vantagem de
se constituir numa grande quantidade.
Para
cumprir esse papel, os sindicatos se tornam centros
organizadores dos assalariados, focos de resistência à
exploração capitalista. Num primeiro momento, eles vão
congregar os operários das oficinas e das fábricas, os que
produzem diretamente as riquezas – o setor dinâmico da
sociedade capitalista. Posteriormente, como o
desenvolvimento do próprio sistema, eles se generalizam,
atingindo outros setores econômicos. Para Marx, “se os
sindicatos são indispensáveis para a guerra de guerrilhas
cotidiana entre capital e trabalho, são também importantes
como meio organizado para a abolição do próprio sistema de
trabalho assalariado”.
“BERÇO
DO CAPITALISMO”
Os
primeiros sindicatos nascem exatamente na Inglaterra –
considerada o “berço do capitalismo”. Foi nesse país que
se realizou a primeira revolução burguesa da história –
dirigida por Crowel, em 1640. após muitas marchas e
contramarchas, a burguesia se consolidou no poder,
acumulou capital e pode realizar a primeira revolução
industrial – no século 18. o capitalismo inglês vai viver
a partir daí um intenso processo de desenvolvimento, com a
superação do trabalho artesanal, posteriormente da
produção manufatureira e, a partir da introdução das novas
máquinas, com o surgimento das grandes fábricas. É nesse
momento, meados do século 18, que o capitalismo encontra
plena condições para se expandir e virar o sistema
predominante.
O
desenvolvimento do capitalismo deixará evidente as
contradições desse sistema. Para extrair a mais-valia,
fonte dos lucros, a burguesia inglesa imporá jornadas de
trabalho que atingiam até 16 horas diárias. Os salários
serão os mais reduzidos e as condições de trabalho, as
mais precárias. Com o objetivo de atrair mão-de-obra
livre, ela promoverá os famosos ’’cercamentos’’ no campo,
nos séculos 17 e 18, expulsando os servos das glebas
rurais para torná-los ’’homens livres’’, aptos ao
trabalho assalariado. Nesse período, são constituídos
enormes contingentes de desempregados nos centros urbanos,
que Marx chamará de exército industrial de reserva, como
forma de baratear o custo do trabalho através da
concorrência.
A
introdução das novas máquinas, que representa a
consolidação definitiva desse novo modo de produção,
também agravará as contradições entre capital e trabalho.
Através desses novos instrumentos, a burguesia golpeia os
artesãos e suas corporações, que tinham grande poder de
barganha. Com as máquinas, ela não necessita mais da
mão-de-obra especializada do artesão; pode introduzir a
mulher e o menor no mercado de trabalho, com salários mais
aviltados e em piores condições de trabalho, Leo Huberman,
no livro “História da Riqueza do Homem”, descreve esse
brutal processo de rebaixamento do nível profissional. Ele
cita, por exemplo, o depoimento de uma criança de 11 anos
a uma comissão do parlamento inglês, em 1816. “Sempre nos
batiam se adormecíamos. O capataz costumava pegar uma
corda da grossura do meu dedo polegar, dobrá-la e dar-lhe
em nós. Eu costumava ir para a fábrica um pouco antes das
seis, por vezes às cinco, e trabalhava até às nove da
noite. Trabalhei toda a noite, certa vez”.
Todos
essas condições de exploração, próprias do novo sistema
econômico, vão gerar resistências entre os explorados.
Esse processo de luta passará por longas experiências. As
greves e os sindicatos, por exemplo, não aparecerão num
estalo de dedo. Antes, a classe operária passará por um
longo processo de aprendizado até encontrar as formas mais
eficientes de luta e concluir que sua união é fundamental
para se contrapor ao poder do patronato. Uma das primeiras
formas de luta foi o luddismo, também conhecido como o
movimento dos quebradores de máquinas. Inexperiente, a
jovem classe operária viu nas máquinas o seu principal
inimigo. Afinal, aparentemente a máquina é que era
responsável pelo desemprego dos trabalhadores
especializados, pela inscrição da mulher e do menor nas
fábricas em condições degradantes, etc.
O termo
Luddismo deriva do nome do operário têxtil Ned Ludd, que
trabalhava numa pequena oficina em Nottinghau, cidade
próxima de Londres. Segundo pesquisas, esse operário
destruiu totalmente os teares mecânicos da fábrica num
sinal de revolta contra os feitos da revolução industrial.
Sua atitude, apesar de individual, refletia o estado de
espírito dos artesões. Em pouco tempo, seu gesto foi
imitado em várias cidades da Inglaterra e atingiu também a
França. “Entre 1811 e 1812, os luddistas espantaram a
burguesia”, informa José Cândido Filho, autor do livro “O
movimento operário: o sindicato e o partido”. O parlamento
inglês, que nunca tratará da questão operária, discutiu o
assunto e aprovou, em 1812, uma lei que punia com a pena
de morte os “quebradores de máquinas”.
A
legislação repressiva não conteve o movimento Luddista,
que quatro anos depois foi retomado com novas máquinas
quebradas em Londres, Glasgow, Newcastle, Preston, Dundee
e outras cidades. Segundo José Cândido, os luddistas
ingleses costumavam cantar uma música, que se tornou
conhecida, quando quebravam as máquinas. “De pé ficaremos
todos/Em com firmeza juramos/Quebrar tesouras e válvulas/E
arrasar todas as máquinas”. A revolta operária repercutiu
também entre a intelectualidade da época, que passou a dar
maior atenção às condições de vida e de trabalho do
proletariado. Dessas primeiras lutas da classe operária
nasceram belos escritos e poemas, como o de Shelley. “Os
homens da Inglaterra”, reproduzido no livro de Leo
Huberman, “A história da riqueza do homem”;
Homens
da Inglaterra, por que arar
Para os
senhores que vos mantêm na miséria?
Por que
tecer com esforço e cuidado
As ricas
roupas que vossos tiranos vestem?
A
semente que semeais, outro colhe
A
riqueza que descobris fica com outro
As
roupas que teceis, outro veste
As armas
que forjais, outro usa
Semeai –
mas que o tirano não colha
Produzi
riqueza – mas que o impostor não guarde
Tecei
roupas – mas que o ocioso não as vistas
Forjais
armas – mas que usareis em vossa defesa
Aos
poucos, entretanto, o luddismo começou a ser superado como
forma de luta da jovem classe operária. Mais experiente,
ela constatou que não era a máquina a sua inimiga, mas sim
o uso que o patrão fazia dela. Que era um erro se
contrapor ao desenvolvimento do próprio conhecimento
humano, expresso nos avanços da tecnologia. O movimento
dos quebradores de máquinas também caiu no isolamento
diante da sociedade, reduzindo-se a pequenos grupos de
trabalhadores que destruíram máquinas e espancavam os
cientistas que as inventavam. A própria burguesia, que num
primeiro momento aprovou a pena de morte, começou a dar
sinais de assimilação dessa forma de luta. É nesse período
que se generaliza o seguro de patrimônio na Inglaterra e
alguns patrões inclusive são flagrados destruindo suas
máquinas para adquirir outras mais modernas.
Outra
forma de luta que será utilizada na influência da classe
operária será o boicote – palavra que deriva do nome de um
oficial inglês encarregado de administrar os negócios do
conde Erne, da Irlanda. Sir Boycolt era conhecido por seus
métodos truculentos no tratamento com os empregados. Ele
se recusava a negociar e os trabalhadores passaram a fazer
o mesmo, propondo que os moradores do povoado não
consumissem os produtos do conde Erne. Este teve um grande
prejuízo e afastou o oficial inglês do cargo. A sabotagem
também será usada nesse período como mecanismo de pressão
dos trabalhadores por seus direitos. O termo tem origem
francesa e significa tamanco. Os operários franceses
usavam esse tipo de calçado para danificar as máquinas,
emperrando a produção.
O saldo
na ação desse jovem proletariado vai se dar com o recurso
da greve – uma forma de luta mais avançada para pressionar
o patronato. Segundo José Cândido, “a origem do termo
liga-se à Praça da Greve (place de greve), atualmente
Praça do Hotel de Ville, em Paris. Quando desempregados ou
para tratarem de assuntos relativos ao trabalho, os
operários costumavam reunir-se ali. Faire greve (fazer
greve) significava, portanto, reunir-se na Praça de
Greve”. A greve foi o recurso de luta de maior eficácia
nesse período, tanto na Inglaterra como nos demais países
em que o capitalismo foi introduzido. Esse recurso se
espalhou pelo mundo, sendo encarado de diversas formas.
Para alguns, defensores da manutenção do sistema
capitalista, como simples mecanismo regulador da
mercadoria trabalho. Para outros, no caso dos anarquistas,
como um fim em si mesmo. “A greve é tudo”, dirá Bakunin –
um dos principais teóricos do movimento àcrata.
Já para
os revolucionários, a greve será vista como uma das
principais armas na luta de guerrilha entre o capital e o
trabalho e como poderoso instrumento de elevação da
consciência e do nível de organização do proletariado. O
dirigente da revolução russa de 17, llieth Lênin, escreveu
um texto sobre as greves, onde afirma:...
SINDICATO
CLANDESTINO
É nesse
processo da luta que a classe operária sentirá a
necessidade de se organizar. É dele que surgirão os
sindicatos ... que na Inglaterra têm o nome de
trade-unlons – que significa união de ofícios, de
profissões. Essas jovens entidades de trabalhadores não
terão as mesmas características dos sindicatos atuais –
que conquistaram o reconhecimento legal, têm sedes,
diretores afastados e gozam do direito de negociar com o
patronato. Pelo contrário. No século 17, período de
surgimento das trade-unlons, elas serão clandestinas, com
muitas dificuldades de atuação. A burguesia verá nelas um
grande perigo. Seu temor é que elas consigam o grande
número de trabalhadores, até aqui dispersos e vivendo em
concorrência entre si pelo emprego. Há registro de
associações de trabalhadores com caráter sindical desde
1699. Nesse ano, em Londres, uma greve dos operários
têxteis assustou o governo e a jovem burguesia – que ainda
se constituía enquanto classe. É só no século 18, quando a
revolução industrial tomou impulso na Inglaterra, que os
sindicatos vão se generalizar. Para evitar seu
crescimento, o parlamento inglês aprova em 1799 a
combinations Iaws, a lei sobre associação, que proíbe o
funcionamento de sindicatos.
A
violência da burguesia se dará em vários terrenos. No
campo legal, elas serão proibidas. A primeira lei que
garantirá a livre associação dos trabalhadores só será
aprovada em 1812, na Câmara de Londres, em Londres. Além
de usar o aparato policial do Estado para reprimir essas
entidades, a burguesia inglesa – e posteriormente de
outros países – também utilizará as milícias privadas. Os
jagunços, que hoje são uma marca do campo em nosso país,
já foram muito usados pelo patronato nos centros urbanos.
Alguns se tornaram famosos, como o bando Pinkerton, dos
EUA – uma poderosa agência de pistoleiros contratada para
reprimir greves e assassinar operárias.
Para se
proteger dessa violência, no início as trade-unions agem
totalmente na clandestinidade. As reuniões são secretas;
não há sedes sindicais, campanhas massivas de
sindicalização, nem mesmo negociação direta com o
patronato. Algumas trade-unions inclusive formulavam
códigos de participação, com normas para garantir a
sobrevivência da entidade. Elas fixam a triagem dos
trabalhadores que devem ser convidados para as reuniões
clandestinas. A entidade dos têxteis, por exemplo, prevê
um período de observação de dois anos para avaliar se o
trabalhador não é dedo-duro, infiltrado do patrão. Só
depois ele é convidado a participar das reuniões. O seu
código fala também em justiçamentos dos delatores,
compondo um braço armado para amedrontar os traidores em
potencial.
Aos
poucos, no entanto, as trade-unions inglesas vão se
consolidando. Elas dirigem mais greves, maiores protestos.
Deixam o patronato num dilema. Já que são proibidas, o
empresário não tem com quem negociar em momento de greve.
Isso gerará grandes prejuízos, principalmente quando não
há estoques e surgem as encomendas de produtos. Diante
desse crescimento das lutas operárias, é que o parlamento
da Inglaterra irá aprovar, em mês de 1824, a primeira lei
sobre o direito de organização sindical dos trabalhadores.
Essa conquista permitirá um poderoso aumento da força do
sindicalismo. Em todos os ramos industriais formam-se
trade-unions. Também surgem as ’’caixas de resistência”
para apoiar financeiramente os grevistas.
Outro
avanço desse período será a organização de federações que
unificam várias categorias. Em 1830 é fundada a primeira
entidade geral dos operários ingleses – a Associação
Nacional para a Proteção do Trabalho. Ela reunirá têxteis,
mecânicos, ferreiros, mineiros e outras profissões.
Chegará a ter cerca de 100 mil membros e editará um
periódico. A Voz do Povo. Na vanguarda do movimento
operário inglês dessa época estarão os têxteis,
principalmente os da concentração industrial de Lancashire.
Em 1866, com o avanço da industrialização em outros
países, será realizado o primeiro congresso internacional
das jovens organizações de trabalhadores de vários países.
Ele representará um grande salto na unidade dos
assalariados, que será materializado com a fundação da
Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), também
conhecida como a Primeira Internacional.
Apesar
de possibilitar um avanço da organização sindical, a lei
de 1824 é contraditória, tendo duas características
distintas. Em primeiro lugar, reflete a própria pressão
organizada dos assalariados – é uma vitória das lutas dos
trabalhadores. Em segundo, também indica uma mudança de
estratégia da burguesia inglesa. Tanto que a lei foi
aprovada na Câmara de Lordes, que reunia apenas a
aristocracia inglesa. Com ela, a burguesia procura novos
métodos para controlar o movimento operário. Ela não
poderia abandonar o seu projeto de dificultar a luta e a
união dos trabalhadores – fundamental para sua
sobrevivência enquanto classe.
Como não
era mais possível proibir as trade-unions, ela adota novos
meios de interferir. Como a história vai demonstrar, mesmo
legalizados, os sindicatos podem ser reprimidos. Nesse
período, muitos industriais pressionarão os operários,
exigindo a renuncia formal à participação nas trade-unions
como forma de garantir o emprego. a força policial
continuará a ser acionada, deixando um rastro de sangue em
toda a trajetória do movimento sindical. A legalização
também permitirá identificar as lideranças, o que pode
facilitar o trabalho de cooptação e corrupção – processo
muito usado até hoje pelo patronato. Além disso, é
possível implantar toda uma legislação de controle dos
sindicatos –como a que existiu no Brasil após o governo de
Getúlio Vargas.
Ainda
nesse período, fruto da experiência concreta, o
proletariado também desenvolverá a luta política,
superando a pressão apenas por reivindicações de caráter
econômico e específico. Surge o movimento cartista na
Inglaterra, que representou um salto na ação operária. O
nome deriva de uma “carta”, elaborada em 1837-38, em que
os trabalhadores reivindicam maiores liberdades políticas,
direito de voto para todos, abolição do sistema pelo qual
só podiam se candidatar os que tivessem tenda, voto
secreto, etc. Em seu conteúdo, o cartismo já expressava a
luta por liberdades democráticas e socialistas. Ele será
duramente reprimido – com inúmeros cartistas sofrendo
processo criminal – de “alta traição” – e muitas
condenações.
Em
outros países, o proletariado participará de ações
políticas, sendo a mais celebre a participação na Comuna
de Paris. Essa foi a primeira experiência em que a classe
operária alcançou o poder político. Sua duração foi curta
– de fins de março a fins de maio de 1871. Num primeiro
momento, a sede do novo poder se instalou na Câmara
Federal dos Sindicatos Franceses, que também era o local
de reuniões da seção parisiense da AIT. Essa experiência,
que não se alastrou e serviu de base para novos estudos
dos marxistas, foi violentamente reprimida. As tropas do
Exército francês, que pouco antes haviam sido derrotados e
tornadas prisioneiras pelos alemães, foram libertadas e
colocadas a disposição do governo da Franca, de Thiers,
por ordem de Bismarck. A burguesia superava suas
divergências para esmagar o movimento operário. A luta
contra o comunards durou uma semana. Mais de 14 mil
combatentes foram mortos na guerra ou foram sumariamente
fuzilados; 5 mil operários foram deportados e outros 5 mil
encarcerados.
O
próprio Karl Marx, um dos idealizadores da AIT, já havia
apontado essa necessidade da ação política ao
proletariado: “O fim imediato dos sindicatos
concretiza-se nas exigências do dia-a-dia, nos meios de
resistência contra os incessantes ataques do capital. Numa
palavra, na questão do salário e da jornada de trabalho.
Esta atividade não só é justificada como é necessária. Não
podemos privar dela enquanto pendure o modo atual de
produção. Ao contrário, é preciso generalizá-la, fundando
e organizando sindicatos em todos os países. Por outro
lado, os sindicalistas, sem que estejam conscientes disso,
chegaram a ser o eixo da organização da classe operária.
Se os sindicatos são indispensáveis para a guerra de
guerrilhas cotidiana entre o capital e o trabalho, são
também importantes como meio organizado para a abolição do
próprio sistema de trabalho assalariado”.
PAPEL DOS SINDICATOS
Nessa
primeira fase de existência, o sindicalismo vai demonstrar
que é um instrumento indispensável para os assalariados.
Com a expansão do capitalismo, que se torna o sistema
predominante a partir do século passado, os sindicalistas
vão se espalhar pelo mundo. Deixam de ser um fenômeno da
Inglaterra. Num processo dialético, onde o capital impera,
suas contradições aparecem, as lutas operárias têm início
e, conseqüentemente, surgem os sindicatos. Todos os
avanços sociais, mesmo de pequenos parciais, serão fruto
dessa luta e da formatação dos sindicatos. Nada será dado
de mão-beijada pelo capital; nada cairá do céu. Cada nova
reivindicação apresentada pelos trabalhadores representa,
num primeiro momento, a redução da taxa de mais-valia do
patrão. Por isso, depende de luta, de pressão organizada.
A história da legislação trabalhista no mundo será a
história da luta de classes, onde os sindicatos jogarão um
importante papel;
Nesse
processo, a classe operária terá muitos mártires, muitas
vitórias e derrotas. Entre as lutas que mais se destacaram
na história, citamos apenas duas – muito marcantes e
ilustrativas. A primeira é pela conquista das oito horas
diárias de jornada de trabalho. Essa será uma luta levada
a nível mundial, comandada pela recém fundada Associação
Internacional dos Trabalhadores. Em 1886, a AIT proporá
uma campanha pelos “três oito” – oito horas de trabalho,
oito de sono e oito de convivência familiar e de lazer. Em
vários países ocorrerão manifestações em defesa dessa
reivindicação. Na Inglaterra, o ano é marcado por um
grande pique grevista e vários confrontos com as forças
policiais. Na França, barricadas operárias são feitas nas
ruas de Paris e de outros povoados. Mas é nos EUA, que
nesse período passam por um intenso processo de
desenvolvimento industrial, que a luta pelos “três oito”
irá adquirir um caráter mais radicalizado.
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